Chuva fina

Written on 07:44 by Jóta Stilben


Saí sem meu guarda-chuva, e começou a gotejar.
Desconfio que foi proposital, mesmo que isso pareça não ter sentido.
Olhei um céu bem azul, e senti uma súbita felicidade;
Mal via o negro das nuvens carregadas, pois meu foco estava além...
Olhava através das minúsculas gotas frias que, sem pedir permissão,
tangenciavam minha face e dispersavam-se no solo, formando pequenas pocinhas que
traziam carinhosamente um cheiro distinto (e gostoso) ao meu respirar.
Veio-me uma lembrança, mas eu não lembrava de nada...
Era apenas uma vaga percepção de um "lembrar" sem definição alguma...
Do gotejar, veio a chuva fina, e da chuva fina, veio o vento, que apresentou-se
em forma de folhas secas do pós-outono à espiralar-se pelo ar, bailando ao ritmo
dos pingos d'água.
A água da chuva me trazia o cheiro da alegria em uma gostosa solidão...
De memórias que se escondiam numa neblina mental, e recusavam-se a aparecer.
(Talvez por falta de estímulo).
Algo fortemente me induzia à deitar na relva curta, e sentir a voz de um passado
ninar meus pensamentos;
Um passado de "não sei o quê" insistia em se insinuar, enquanto a chuva engrossava,
como que gritando, imperando pra que não deixasse escapar aquele momento.
Pra que guardasse aquilo tudo em vestígios: o corpo molhado, a roupa transparente,
ou quem sabe, um sorriso de canto de lábio...
Tolo que sou, fui pra casa pra não me gripar...
Tudo se tornaria mais claro, e simples (obviamente), mas simplesmente não aconteceu.
A oportunidade perdida serviu de lição, e hoje procuro a chuva, em cada céu que começa
a nublar.
Ela me procura, incansável, pra dizer que esqueci de buscar a ela, e à natureza...
E eu a procuro, e procuro respostas que só ela pode trazer...
Pra deixar saudade, apenas sussurrou em meu ouvido:



"Esqueceras o que é Nostalgia..."

If you enjoyed this post Subscribe to our feed

No Comment

Postar um comentário