Realidade

Written on 10:20 by Jóta Stilben

Levantei e dei dois passos em direção a porta. Ela abriu sozinha, tal qual um sorriso gentil.
Como estava bocejando de preguiça, não vi enquanto atravessava da porta para o corredor de casa. De qualquer forma não importava, não existia mais corredor.

Estava eu, subindo pé-ante-pé colina acima, deixando meu apartamento apertado pra trás. Deixando o bloco pra trás. Vendo a cidade se resumir em cinza, deixando-a também à saudade.
Enquanto andava, por pouco os meus pés descalços tocavam o chão. Sim, eu estava flutuando!
O vento finalmente estava soprando, muito ao contrário daquele ínfimo assobio que outrora realizava. Nas sobras das árvores, sombras de pássaros. E da boca dos pássaros saía jazz. Algo como Madeleine Peyroux.

Tudo aquilo o que eu sabia, que eu deixava para trás com as más lembranças, todas as contas matemáticas, as raizes quadradas das moléculas da física desapareceram da minha mente. E eu não me incomodei nem um pouco com isso. Leads jornalísticos, construções de linguagem, verbos, tudo aquilo me fugia ao som da música. E quão grato eu fiquei por saber tanto quanto um recém nascido!

O céu não era todo limpo, tinha belas nuvens que desenhavam o que a imaginação fosse capaz de produzir. Com todos aqueles dragões, barcos, anéis e senhores que eu via, não mais me sentia só, apesar de sozinho naquele lugar. A ausência da miopia em mim, fazia com que eu enxergasse cada fiapo de grama, dentre quilômetros e quilômetros de liberdade.

Liberdade...

Ao sentar, senti as costas doerem. Porém, não era o músculo, a vértebra, era o violão. Sim! O violão que estava em minhas costas quando saí de casa! Como pude esquecê-lo?
Violão no colo, a brisa fria equilibrando o calor dos intensos raios solares dispersos entre as folhas da árvore, o silêncio...

Descobri que sabia cantar e tocar. Descobri que meu repertório não fazia sentido, eram outras músicas. Eram vogalizações harmoniosas, suaves, ritmadas.
A minha voz era, por fim, bonita. A minha mão, meu toque, era suave, e meu sorriso era visto por mim mesmo. Enxergava cada gota de sinceridade em meu sorriso, como um rio translúcido que me admirava os olhos juvenis.
Um senhor sentou ao meu lado, mas não disse uma palavra sequer.
O sorriso dele era como o meu. Era um belo sorriso sincero e certo... me era familiar.

O tempo parou no pôr-do-sol, a noite não chegou. O tempo esperava o meu sono embalar as estrelas, e por fim convencê-las a aparecer.
Vi cada tonalidade, do rosa ao branco, do roxo ao azul-água, hora após hora, daquele descansar da estrela-mãe. Também descansei os olhos.
A lua cheia, o cheiro da relva recém-molhada, o sereno. Que noite agradável!

Amei-me, como nunca amei em minha vida.





Passos À Lugar Algum



Corro, corro, me deixo suar
Pingos de sal que escorrem dos poros
O ar se resfria, cortando o mundo
Respiro o vento em tempo mais rápido
De passo em passo, segundo em segundo.

Corro, corro, sem saber pr'onde ir
Corro sem hora alguma à voltar (!)
Pedras redondas desgrudam do asfalto:
Corro, salto, me deixo levar.

Tropeço, me apóio e corro...
Ate o ultimo metro de chão
Corro de tonto, um tanto perdido
Corro do dia à escuridão.

Corro, corro, e fico sem fôlego
Deito à beira do cheiro de mar
Sob um coqueiro repouso tranquilo
A volta pra casa ainda vai demorar...


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