Volúpia

Written on 22:02 by Jóta Stilben

Eu queria te atingir
como quem ateia fogo.
Fazer você se contrair
sem ter de fazer jogo.


Queria deitar na tua pele
a gota salgada que lhe assanha.
Para que nas minhas costas se revele
o que pouca gente tem, ou repele:
As marcas de um vigor que arranha.


E assim, na cama, eu morreria
como todo homem que flutua:
De um lado a mão que acaricia
do outro, a que encobre a pele nua.


Muita gente sente falta
das coisas mais fáceis de se conseguir.
Eu apenas sinto vontade
daquilo que é bom de verdade:
a Letícia que imagino antes de dormir.

Pornografia

Written on 21:36 by Jóta Stilben

Foi-se a noite, mas eu não fui:
sou perseguido pela espera matinal.
Com a angústia do não-sono, na boca me flui
o merlot, o Jack, o Monte Pascoal...

Sou bom moço, a tara é intimista
a rua me passa lenta e distante,
o abajur conforta a escrita.

E no som do solista
do jazz extasiante,
a boemia se fez finita.

O cheiro da madeira da mesa
A fumaça nostálgica, a destreza
de quem, no tímpano, ressoa o violão,
Me faz lembrar que o amante solitário
Não nasceu pra ser estagiário,
nem pra viver como um qualquer João.

O que há por vir.

Written on 20:57 by Jóta Stilben

Procuro um chão de terra batida

onde o asfalto ainda não preencheu
Um por-de-sol, ou manhã nascida
que um prédio qualquer não corrompeu.

A mesa da vida que não tenha um pano em cima
E se tiver, que não tenham apostado
À tragar o errado, e na rima
Fazê-lo inesperado.

Na vida, pouca coisa me arrasta,
E na pasta, a poesia que é rouca
deixaria de fingir-se de casta

Pois, se o mel da morena me adoça a boca
E se o futuro não vem de forma louca,
Nada mais, além disso, me basta.

Written on 23:28 by Jóta Stilben

Se o medo lhe consome: espera
Pois no medo o bom moço ressurge
A situação não mais é quimera
E a tua falha não mais urge.

O que tem que mudar, sempre muda
e tudo renasce como nova criança
Se a alegria se faz cisuda
Logo se faz esperança.... aguarde!

O que eu penso dela, companheiro
Não cabe maiores satisfações, eu sei
Mas de todo o mal derradeiro,
Só sabe do novo quem afirma: eu amei.

E eu amo.

Não pensei num título

Written on 23:24 by Jóta Stilben

É quase um apelo de bar
Onde no copo, dois cubos de gelo
Fazem um pranto, um gritar
quase um singelo apelo:

Veja como amanhece o dia
"primavera quer entrar"
mas ainda é inverno
E o eterno há de retornar

Mesmo que não faça muito sentido
Faz um berro no estereo, que reverbera
Onde na caixa, o som se faz iludido
Pra trama de paixão que a trilha sonora espera.

Eu já tenho o meu amor, e você?
Onde num afago o pranto dorme
No outro se faz entender...

Mas pra quê quatro braços
Quando um par os conforta.
Se o beijo, o cheiro de novo, importa,
Não precisa mais o papel sofrer novos amassos.